sábado, 18 de dezembro de 2010

Criação literária: O vício pela palavra



O sujeito da vontade está constantemente preso à roda de Ixion, colhe continuamente pelas peneiras das Danaides, constitui o eternamente supliciado Tântalo.
Schopenhauer




Webterapia. Esta nova palavra começa a ser discutida nos chats da Web e significa, causando certo incômodo, um tratamento especializado para pessoas “viciadas” em Internet. Este vício, admitido por muitos veteranos da rede, se conceitua plenamente, pois envolve um intenso querer e, na impossibilidade de satisfação, numa síndrome de abstinência bem definida: sem uma boa dose diária de computador, principalmente nas salas de bate papo (e, hoje, nas redes sociais) o internauta se vê acometido de uma sensação de vazio, de irritabilidade fácil e, nos casos mais severos, de franco desespero.

É bem certo que em grande parte do tempo do chamado mundo "real" esse internauta tem os seus pensamentos voltados para as coisas do chat e da rede, e não vê a hora de ter os seus olhos iluminados pela telinha, suas mãos ávidas pelo teclado e o mouse e o seu ser mergulhado profundamente nesse mundo fascinante, constituído, a rigor, por palavras (e, mais recentemente, acrescentado por postagens de música, filmes, fotos, etc.).

Viciados em álcool, cocaína, morfina e outras drogas, além do jogo, vivem fixação semelhante e estão sujeitos a síndromes de abstinência bem caracterizadas pela medicina. Também, o anseio pela droga, um querer incontrolável, exibe um padrão comum de busca de prazer: drogas, sejam depressoras ou estimulantes, agem como sedativos, produzem euforia e excitação, trazem desinibição, emoções, "sensações" novas e buscas que, por assim dizer, vão além do princípio de inovação.

Pode a palavra - esta unidade singular, mônada e mágica, a quintessência do chat - ser comparada às drogas? Eis uma pergunta curiosa e pertinente. Pois, participando dos chats sentimos, como na leitura de um livro, prazer e fruição, de alguma forma pelo amor à linguagem. O texto, ora superficial, ora profundo e intimista, torna-se objeto de fetiche e permanecemos ali, mergulhados na verdade da linguagem.

Já foi dito: a palavra faz o sentido, o sentido faz a vida. E todos sabem que vidas têm encontrado o seu mais profundo sentido nos chats. Mais: em que pesem os apelidos, as máscaras, o anonimato, as dissimulações, o relacionamento alcançado assume um aspecto extraordinário pois, ao contrário do mundo real, onde a relação se principia por uma visão exterior da pessoa e, somente depois ocorre a busca do conhecimento do interior, no chat o inter-relacionamento parte de verdades interiores, contadas pelas palavras digitadas. Ora, isso é extraordinário pela rapidez com que ocorre e mais ainda por ser um fenômeno cujo grande significado pode-se depreender nas palavras do filósofo do pessimismo: "Existem de fato duas maneiras opostas de se tornar consciente de sua própria existência: em primeiro lugar, numa intuição empírica, como se apresenta do exterior, como um ser infimamente pequeno, em um mundo ilimitado... Em segundo, porém, afundando-se em seu próprio interior, adquirindo a consciência de que se constitui o todo no todo, e o único ser efetivamente real, a se contemplar adicionalmente nos outros e no dado exterior, como num espelho."

Estaria aí a grande fonte de prazer e poder do frequentador do chat, a possibilidade de se ser o eu-total? Creio tratar-se de boa especulação. Não seria isto semelhante ao pensamento cabalístico de que a idéia de uma coisa, o nome e a própria coisa mesma são uma só coisa e, assim a palavra, prenhe de significado, sob o olhar humano entra em corporificações que marcam inúmeras camadas de significado?

Estudos neurofisiológicos têm demonstrado a participação de receptores cerebrais, onde atuam substâncias como a serotonina, a dopamina e outras, chegando-se mesmo a especular a localização dos sítios anatômicos de vício.

É curioso como algumas pessoas adquirem amor à leitura de livros na infância, se tornam, ao longo de suas existências, leitores vorazes desses tesouros, avançam no desordenado rio dos livros como navegantes solitários, com uma avidez de leitura que não descansa, nem de dia nem de noite. A palavra "amor" pode, aqui, perfeitamente, ser substituída pela palavra "vício". Não estamos, portanto, falando do mesmo assunto?
Amigas e amigos viciados em palavras, eis uma reflexão adicional: teriam os grandes escritores, os gênios, sítios cerebrais, sedes deste vício por palavras, bem maiores, ou mais desenvolvidos e complexos, e aí estaria escondida a fonte da criação - cujo mistério é ainda hoje absolutamente indecifrado?

Finalmente: a Webterapia deveria nos desintoxicar das palavras?

Sérgio Mudado
( apelidado Thomas, em um O Caixote, de antigamente)

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