Divulgação de textos literários de Sérgio Mudado. Comentários sobre sua obra e dicas de livros.
domingo, 19 de dezembro de 2010
A arte de vender um romance (II) ou a Barca de Gleyre
sábado, 18 de dezembro de 2010
Criação literária: O vício pela palavra
O sujeito da vontade está constantemente preso à roda de Ixion, colhe continuamente pelas peneiras das Danaides, constitui o eternamente supliciado Tântalo.
Schopenhauer
Webterapia. Esta nova palavra começa a ser discutida nos chats da Web e significa, causando certo incômodo, um tratamento especializado para pessoas “viciadas” em Internet. Este vício, admitido por muitos veteranos da rede, se conceitua plenamente, pois envolve um intenso querer e, na impossibilidade de satisfação, numa síndrome de abstinência bem definida: sem uma boa dose diária de computador, principalmente nas salas de bate papo (e, hoje, nas redes sociais) o internauta se vê acometido de uma sensação de vazio, de irritabilidade fácil e, nos casos mais severos, de franco desespero.
É bem certo que em grande parte do tempo do chamado mundo "real" esse internauta tem os seus pensamentos voltados para as coisas do chat e da rede, e não vê a hora de ter os seus olhos iluminados pela telinha, suas mãos ávidas pelo teclado e o mouse e o seu ser mergulhado profundamente nesse mundo fascinante, constituído, a rigor, por palavras (e, mais recentemente, acrescentado por postagens de música, filmes, fotos, etc.).
Pode a palavra - esta unidade singular, mônada e mágica, a quintessência do chat - ser comparada às drogas? Eis uma pergunta curiosa e pertinente. Pois, participando dos chats sentimos, como na leitura de um livro, prazer e fruição, de alguma forma pelo amor à linguagem. O texto, ora superficial, ora profundo e intimista, torna-se objeto de fetiche e permanecemos ali, mergulhados na verdade da linguagem.
Já foi dito: a palavra faz o sentido, o sentido faz a vida. E todos sabem que vidas têm encontrado o seu mais profundo sentido nos chats. Mais: em que pesem os apelidos, as máscaras, o anonimato, as dissimulações, o relacionamento alcançado assume um aspecto extraordinário pois, ao contrário do mundo real, onde a relação se principia por uma visão exterior da pessoa e, somente depois ocorre a busca do conhecimento do interior, no chat o inter-relacionamento parte de verdades interiores, contadas pelas palavras digitadas. Ora, isso é extraordinário pela rapidez com que ocorre e mais ainda por ser um fenômeno cujo grande significado pode-se depreender nas palavras do filósofo do pessimismo: "Existem de fato duas maneiras opostas de se tornar consciente de sua própria existência: em primeiro lugar, numa intuição empírica, como se apresenta do exterior, como um ser infimamente pequeno, em um mundo ilimitado... Em segundo, porém, afundando-se em seu próprio interior, adquirindo a consciência de que se constitui o todo no todo, e o único ser efetivamente real, a se contemplar adicionalmente nos outros e no dado exterior, como num espelho."
Estudos neurofisiológicos têm demonstrado a participação de receptores cerebrais, onde atuam substâncias como a serotonina, a dopamina e outras, chegando-se mesmo a especular a localização dos sítios anatômicos de vício.
Amigas e amigos viciados em palavras, eis uma reflexão adicional: teriam os grandes escritores, os gênios, sítios cerebrais, sedes deste vício por palavras, bem maiores, ou mais desenvolvidos e complexos, e aí estaria escondida a fonte da criação - cujo mistério é ainda hoje absolutamente indecifrado?
Finalmente: a Webterapia deveria nos desintoxicar das palavras?
Sérgio Mudado
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
CORTINA DE RENDA BORDADA (após a leitura de Os negócios extraordinários de Juca Peralta)
Dias atrás lhes ofereci um aperitivo para a leitura de Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta e agora tentarei passar direto à sobremesa, já que a leitura, para mim, foi um lauto almoço.
Vejo a leitura de obras de ficção de duas maneiras: 1) a das obras que nos impelem para uma leitura açodada, como se o livro nos empurrasse para o final – geralmente o gênero de suspense, por exemplo, nos obriga a procurar rapidamente o fim, porque, de certo modo, “temos que descobrir” o mistério; e 2) a daquelas obras que nos levam à maturação de muitas das idéias que estão ali e nos levam a querer saber mais não apenas sobre a própria história, mas também como ela foi construída.
Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta pertence ao segundo tipo. É um livro cheio de suspenses, perigos, incertezas, ameaças e, no entanto, nada disso é irrefletido; ou seja, não vamos de cambulhada atrás dos acontecimentos. Somos obrigados a saborear cada uma dessas aventuras porque são elas que formam o amplo mosaico sobre o qual os personagens se movem. E como não se movem numa única direção, nem em tempo linear, o(s) espaço(s) e o(s) tempo(s) nos carregam para o desconhecido e nos levam e trazem para pontos aparentemente conhecidos, mas agora mais significativos, porque pudemos refletir sobre eles.
Assim, de uma ponta à outra da obra, seguimos passo a passo um certo Juca Peralta, até sermos, aí sim!, atirados no turbilhão que também o arrasta.
Dito desta maneira parece uma obra de difícil leitura. Mas Juca Peralta é um grande enganador, um sedutor treinado nas rodas boêmias da Belo Horizonte dos anos de 1930 (fim da belle époque que ainda está presente em muitos prédios de BH). Ninguém resiste aos encantos desse personagem ao mesmo tempo indignado, cínico, corajoso que não nos dá tempo de chorar o leite derramado e já parte para outra. Vamos no trem do sertão, no trem fantasma-carnavalesco que circula nas madrugadas e com Juca entramos pelas brenhas de um Estado das Minas Gerais tão cosmopolita quanto BH e tão cruel quantos as veredas de seus sertões. Tudo convive neste romance e se desdobra em novas paisagens, novos sentimentos, velhas e renovadas vidas - angústias e esperanças diante de seus começos e de seus fins. É preciso ler para crer.
A capital – Belo Horizonte – recebe um carinhoso tratamento, recuperando suas paisagens já perdidas. Os personagens que circulam ali e nos lugares visitados por Juca em suas viagens são tipos mineiros que ora batalham por preservar a herança de uma história perdida ou mal contada, ora para exemplificar as eternas rixas políticas que acabavam em morte ou coisa pior. Mas são as surpresas do romance que é preciso saborear. Elas vão surgindo lentamente, no trote manso de um cavalinho muito bem treinado a quem foi destinado puxar sobre o palco de nossas mentes de leitores uma cortina de renda bordada.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Dois médicos encantados pela arte de dois médicos. Ou: Veredas para Bom Despacho.
(Texto e poema baseados, respectivamente, da obra de Pedro Nava e de Guimarães Rosa.
O Riobaldo, naquele jeito dele, ensina o que é amigo. É bonito, de doer, aquilo. Amigo meu! O Antônio Angelo é. Quase basta. E eu o conheço? Ora, ninguém conhece o outro. É meu compadre. Nasceu no Bom Despacho, eu no Belo Horizonte. Temos, no comum, esse B, Bom e Belo: o B que desenha uma Bunda boa, cheia. Pacato, irônico, cardiologista, poeta, prosador. E amigo, já disse. Às vezes me tira de casa, me leva no jipe pro campo, me mostra belezas que não sei ver. Aí, médico não é mais, é só poeta, é só prosador. Vai se transformando no Vidigal Matos. Adiante, nem jipe. Monta no seu cavalo Feitiço, de dois andares, toma um galope perigoso, ri do meu medo, vai apontando aqui e acolá, os azuis cada vez mais puros das serras, as montanhas douradas, de prata, de verde esmeralda, as cintilações, a mata, Pode sentir o ar úmido? Poderia, se conseguisse respirar. Quando chegaremos ao aonde? Ele ri. Só mais um terço de légua. E seguimos cavalgando aquele solo ilustre. Vou te mostrar uma beleza antiga, do Nava, que você tanto gosta. Tenha um pouquinho de paciência. E prossegue, é agora, totalmente o outro, que eu também não conheço, mas é o Vidigal Matos, de conto premiado, cavalgando no cavalo Feitiço, e querendo me mostrar uma beleza. Lá, no aonde. Pronto, vamos parar um pouco aqui, pra ver o sol iluminar o rio São Francisco, é ali, nessa direção, aponta, e eu apenas vejo um mar de montanhas, umas depois das outras, depois das outras, depois das outras... Ficamos suspensos num silêncio, então miramos a maravilha do Nava, a bola do sol vai descendo no céu limpo. Quase tocando o horizonte, encostando seu fio na montanha. Mas às últimas claridades, um pouco para cá, acende-se de repente um longo fio serpente de fogo que coleia lampejo nem o tempo de se contar até quarenta e cinco para se encantar apagada e sumida no chão adentro da noite que cai. Tinta cor do sol poente entornada no chão, escorrendo. O prodígio, explica Vidigal, deve-se à batida obliqua dos raios poentes no espelho das águas do São Francisco que incandescem e são vistas lampejando nas léguas e léguas para lá da sua Bom Despacho...
Sérgio Mudado
MUNDOS GUIMARÃES
Belo Horizonte acorda chuvosa.
Da janela vejo ao longe semi-ocultas
encostas por onde casebres se espalham
de forma promíscua,
degeneração de matriz cancerosa.
Sufoca-me a metrópole.
Na estante alcanço Guimarães Rosa
onde encontrar cheiros e climas:
comunhão possível com raízes interiores,
confluência de riachos, matas e trilhas.
...córregos fugindo brenhas adentro, buritizais,
patuléia miúda (muito trabalho e rala existência),
brancas noites de plenilúnio, reboliço de brisas flauteando no bambuzal,
terras altas além do Urucúia, taperas em vilarejos desolados,
garrixas cochichando no beiral do telhado,
manhã invernosa, dois cabras sentados à porta tiritando de febre e ciúmes
(“Esta noite sonhei com ela, bonita como no dia do casamento” – diz um),
quintais onde a erva daninha se espalha, tiriricas,
o manchão laranja do cipó-de-são-joão no barranco
que nem tinta cor do sol poente entornada no chão,
vento viajeiro ondulando a extensão do capim gordura,
cercas de pedras, bois no pasto, ecos de tiros nos socavões;
meio-dia: um esmorecimento, um não-querer nada,
árvores ressequidas erguendo raquíticos galhos
contra o céu de azul coruscante – ali vai um cão magricela,
urubús em re-círculos bailarinos no anil distante -
zunir de varejeiras, azuis brilhozinhos azuis de asinhas,
rios sem margem, barco se esquivando no breu da noite;
moça na janela, boiada passando
(cavaleiro olha-olhando espichado,
sonhando com o alvo véu de filó, rendas, camisa de cassa branca,
e, ao depois, filhos, gadinho, galinhas no terreiro,
horta, pomar e um cachorro fiel anunciando forasteiros).
No meio da rua o redemoinho ,
e dentro dele - ou vigindo nos crespos do homem - o sem nome.
No Pirapora, Diadorim não se desveste,
atento aos despistes de Riobaldo...
Corguinho deitado, vereda sem nome, buritis em fila,
Riobaldo oferece mimo, pedra safira de Arassuaí,
que de coração Diadorim agradece –
esperar até acerto de contas com Joca Ramiro;
Riobaldo conta favas e refavas
e pensa na moça clara da Fazenda Santa Catarina –
(e a outra, para todos formosa, de saia cor-de-limão,
florzinha amarela do chão, prostitutriz, Nhorinhá).
Por algum tempo, Belo Horizonte é sombra esquecida,
mas que forja matreiramente suas ruindades
ruminando segundas-feiras desenxabidas.
Eu divirjo – resistencioso às sovinices do tempo –
e me esquivo de retornar à janela,
na desvontade de presenciar o mundo.
Antonio Ângelo de Oliveira
domingo, 5 de dezembro de 2010
A dança das doze princesas
Tinha apenas 13 anos. Assustada, encontrava-se encolhida num leito de enfermaria do antigo sanatório. Tinha acabado de se internar. Ele, de imediato, percebeu o medo intenso no seu olhar. De animalzinho acuado. Transferida de outro hospital, privado, vinha com o diagnóstico estabelecido: um fungo infeccionava-lhe profundamente o corpo. O tratamento seria longo e caro. Por isso fora transferida para o serviço público... Nunca, em toda vida, tinha saído de sua casa, no interior do Estado, de perto de seus pais, de sua família. Seu terror, mudo, parecia encher de desespero a tarde que findava. Medo. Medo. Procedeu ao exame de admissão. Medo. Pavor. Tranqüilizou-a como pode. Fez a prescrição que devia e foi atender a outros pacientes... O plantão prosseguia. Quando o manto da noite trouxe os escuros que aumentam a solidão e o medo, ele inquietou-se... Céus! Não podia deixar de pensar naquela menina assustada... No pavor que deveria estar experimentando. Decidido, saiu do estar médico, dirigiu-se à enfermaria. Postou-se aos pés da cama da garota, sorriu, perguntou-lhe se gostaria ouvir uma história. Inibida, ela acenou um sim com a cabeça. Ele então começou, Era uma vez, há muitos anos, num reino distante... E, voz modulada, narrou um conto de fadas, enchendo a enfermaria de princesas e príncipes, de florestas de prata e de ouro... De um baile fabuloso, num castelo iluminado do lago... De música... A Dança das Doze Princesas... Tal e qual costumava contar para os seus próprios filhos. Então, fez-se a magia. Nos olhos da mocinha, o susto e o medo cederam ao encantamento e ao sonho... E, ao finalzinho da história, ela, exaurida pela doença e pelo medo, dormia. E sorria em seus sonhos. Com passos leves, ele saiu da enfermaria, ganhou o corredor, de volta ao estar. Também sorria: sentia-se mais médico. Mais do que quando ali entrara. Aliás, parecia um anjo...
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
O valor de uma prece manniana
http://www.libre.org.br/titulo_view.asp?ID=10849
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
A luz do cais
Enfim, uma festa de fim de ano razoável no Departamento, salgadinhos finos e, admita-se, aquela delicada musse de abacaxi com passas, oferecida sobre tenros pãezinhos árabes, fora maravilha de se regalar, saboreamos o acepipe de modo vergonhoso, se me permitem exagerar um pouco. Pena ter se mesclado àquele xarope branco alemão que insistem em chamar de vinho, ainda com qualidades e predicados, sacrilégio, puro sacrilégio. Quebra de regozijo? Nem tanto: o pessoal dançou, aplaudiu, conversou sobre solidariedade, paz, ventura, essas coisas, mais a puxação de saco dos chefes, o que acontece em todos os lugares e todas as eras... Valeu, no entanto, tudo tem valido nestes tempos em que o viver transformou-se em sobreviver, e sobrevivemos à duras penas, concordam? Principalmente no Natal, pois aí o bicho pega e uma das patas desse bicho chama-se depressão, com unhas arranhando a torto e direito, sem dó, ora, você sabe muito bem do que estou falando.
O que não sabe é que já saí da festa e lá vou eu, nesta noite de cerração, lá vou eu enternecido de paz e solidariedade, subindo a alameda, a caminho do estacionamento do hipermercado, onde estaciono o meu carro...
Então aquilo: a visão de uma cena, logo à entrada do supermercado, faz com que uma fria lâmina, do medo, me penetre até a medula. Um segurança, alto e forte como um carvalho, está detendo uma velhota, Volte, tia, vamos voltar, e, enquanto um de seus braços cerca a tentativa de avanço da senhora, a outra mão já leva o rádio à boca, Temos um 174 aqui, na saída 2, câmbio... Tia, vamos voltar lá pra dentro, tia, vai ter que devolver... Não pode ir se mandando assim, tia... Ela, com duas sacolinhas agarradas ao peito, protegidas como bebês, tentava romper o cerco de carvalho, Moço, deixa eu ir embora, deixa eu ir embora, não tirei nada... Tirou sim, tia, venha, vamos, não complique as coisas...
Contemplei a cena, meu coração, acelerando, fazia ainda mais pesado, mais temeroso e mais opresso de presságios. Tratava-se de uma velhota surrada pelo tempo: alta, robusta, com blusa e saia sem cor definida, um desses beges escuros, de sujeira disfarçada. Só não tinha a boca totalmente murcha, pois dois enormes dentes inferiores projetavam-se de gengivas retraídas, quando repetia, altiva, olhos miúdos e sem medo, Me deixa ir embora, moço, deixa eu ir, o que é isso?... E falava apertando com mais força as duas pequenas sacolas contra o corpo.
Novos seguranças chegam, Câmbio, câmbio, que estupenda movimentação, furto é furto, e a velhota está agora completamente cercada, Câmbio... O frio do medo continua trespassando minha medula, explico esse pavor: a ditadura militar colheu-me no início da adolescência, ah, aprendi, como aprendi a ter medo de botas, de quepes, de polícias, de rádios de mão, dos malditos câmbios operantes positivos, putamerda, ainda hoje, os cabelos já nevando a cabeça, sinto o coração disparar quando, numa simples blitz de trânsito, um meganhazinho de merda me pede documentos...
Medo.
Sei que muitos de vocês, de cabeça já nevadas, ou, pior, carecas, sabem muito bem do que falo. E me entendem.
Permaneço, atraído como um sapo pela cobra, a observar a cena, Me deixa ir embora... Não, Tia. Vamos voltar pra dentro. Não me obrigue...
Pague pra mim, moço...
Pague pra mim.
Ela, a velhota, dirigiu-se a mim. Sobressalto.
Não tenho dinheiro..., tartamudeei. (O que era verdade, não trazia nada na carteira, exceto umas poucas moedas, troco de dois maços de cigarros que comprara antes de ir para a tal festa de fim de ano, putamerda, a musse de abacaxi, misturada ao vinho, subiu-me à garganta, azedando.) Voltei-lhe as costas, sim, voltei-lhe as costas, desci, célere, a rampa rumo ao estacionamento, um cigarro já era tragado com sofreguidão.
Entrei no carro, respirei fundo e, com os nervos mais ou menos tranqüilizados, dei a partida. Antes de me arrancar dali, não sei por que cargas d’água, eis que, de súbito, sobreveio-me, à mente, uma cena remota de minha vida, fui arrebatado para uma certa hora e um certo lugar, acontecera, repito, havia um bocado de tempo, mas surgiu-me como uma impressão vigorosa, de intensidade... Era um recém-formado e acabara de arrumar o meu primeiro emprego, no Departamento. Vocês se lembram dos primeiros salários, não é mesmo? Produzem sonhos e assim, em sociedade com o meu irmão Renato, comprei o primeiro carro, um fusquinha 66, vermelho desbotado, bem ruinzinho o miserável, no entanto, nosso. Meu e do Renato. E era lindo.
A cena ocorreu ao término do expediente, quando, juntamente com um colega de serviço, esperava pelo irmão, que viria me buscar no nosso fusquinha, recém-adquirido, bárbaro. Éramos todos jovens, sonhos escondidos no coração, a Ditadura amordaçando e ferindo o que podia. No passeio, enquanto aguardava o Renato, meu colega e eu espiávamos o trânsito da avenida. Então aconteceu de um pneu de carro furar justamente ali. A mulher que dirigia o veículo conseguiu levá-lo para o retorno aberto no canteiro da avenida, bem defronte a nós. Meu colega, sorriso maldoso, logo disse: Vamos ver como ela vai se virar com esse pneu... Concordei, tolamente, e ficamos a observar a luta da mulher com o macaco, chave de roda, esforços grandes para a sua fragilidade, o colega sorrindo, eu, besta, sorrindo também, e assim estávamos, a gozar o espetáculo, quando o fusquinha 66 chega, atravessa a passagem do canteiro, estaciona, seu motorista desce do carro, sequer olha para nós, dirige-se rapidamente ao carro da mulher, e num átimo, troca o pneu furado, ajeita o resto das coisas no porta-malas, a mulher agradece, ele apenas acena a cabeça, atravessa a rua, agora em minha direção e diz: Vamos embora?
Fomos. Em silêncio.
Arranquei o carro, diacho, vou me mandar daqui, nada tenho com isso, com aquela mulher das sacolinhas, merda, merda, se não voltar lá não durmo nunca mais.
Freio. Tenho a testa suada.
E tenho também o meu cartão de crédito, pago aqueles trecos, porra. E pronto.
Estaciono, novamente, desço e a passos rápidos e decididos, volto ao local do crime.
Lá estava ela, perto de um dos caixas, ainda altiva e cercada por seguranças, dizendo, com os dois dentões inferiores sobressaindo, A gente não leva nada deste mundo, não levamos nada, nem eu, nem você, nem ninguém... O segurança-chefe, no entanto, retrucava, Não se tira o que é dos outros, tia... E ela, Mas aqui tem muito, moço, tem demais, tem de sobra, não sou ladra. E o outro, Mas o hipermercado não é nosso, tia, se quiser levar tem que pagar...
O que ela tirou?, perguntei. Um dos seguranças me puxou para o lado, Doutor, não se preocupe, ela sempre faz isso, é meio louca, sabe? Roubou picanha e lingüiça defumada, esperta, não? Ela está sempre aí... Olho para a velha, não se leva nada deste mundo... E os dois dentes imensos pareciam contestar isso, ela os levaria quando morresse, Ela é esperta, doutor, picanha, lingüiça defumada, bico fino, não caia nessa esparrela, é sempre assim, ela busca um otário, nós manjamos ela, está sempre aqui... E a velha, cansada de dizer que nada se leva desse mundo, que uns pedacinhos de carne não fariam diferença para aquele mundão de hipermercado, mas faria diferença para os seus netos, abaixou a cabeça, pela primeira vez. Cedia.
Sim, eu tinha o cartão de crédito no bolso. Mas não sou otário. Picanha, lingüiça defumada? Que espertalhona, é louca, mas sabe escolher o que há de melhor... E é contumaz, diacho. A musse subiu o esôfago novamente, azedou tudo. Não esquenta, doutor, ela está sempre aí, ladra, contumaz, só pega coisa boa, por que não escolheu músculo? Tinha que ser picanha?...
Fico zonzo, afasto-me da cena, não sou otário, não pagarei aquilo, picanha, não pago, se ainda fosse músculo, mas picanha!... Sigo em frente. Estou um pouco confuso, mas sigo em frente. Quero olhar para trás, mas sigo em frente, não olho... Chego ao carro, um fusquinha 66. Renato está ao volante, ele não titubeara um só instante, chegou, viu e trocou o pneu. Vamos? Sim, vamos. Não sou otário, vamos, em frente, vamos, nada levamos mesmo deste mundo...
Está escuro e nublado, o fusquinha avança, noite adentro. Não enxergo um palmo além do nariz, mas o fusquinha vai célere. Não enxergo, até que um clarão ilumina-me o cérebro e então percebo: o Renato, ele teria pagado, claro que sim, redimiria a dignidade daquela mulher, não daria confiança para os seguranças, nem para ninguém, apenas faria o que deve ser feito, por isso ele avança sem medo neste breu de vida, ele se guia pelo retrovisor, como aquele pescador que na madrugada escura e nebulosa, avança mar adentro, seguro, guiado pela luz do cais de onde partiu.
Olho para trás...
A escuridão do cais preenche o vazio do meu ser.